Eu não gostava de inverno, principalmente das manhãs de inverno. Por diversas vezes eu acordei com pingos de água caindo e perfazendo todo o contorno do meu rosto ainda quente. Chovia e no telhado logo acima da rede em que eu dormia tinha uma goteira por onde passava as gotas de água que me faziam despertar dos sonhos.
Dormir pra mim naquele tempo era uma maneira de fugir da realidade, eu não dormia apenas porque tinha sono, eu dormia pra esquece, eu dormia pra sonhar.
Durante toda minha adolescência vivi com fantasmas do passado. Lembrava das brigas dos meus pais, do medo que tinha quando cada discussão começava porque sabia que minha mãe ia sair machucada de cada uma delas.
Recordo da última, antes da minha mãe decidir fugir. Que dia maldito e ao mesmo tempo foi o começo de uma vida menos triste.
Meu pai batia na minha mãe na minha frente, como ele era cruel! Eu tinha apenas seis anos. Ele se virou pra mim em meio as pancadas que dava na minha mãe e disse que a mataria. Nunca esqueço aquelas palavras, aquele olhar de ódio que ele demonstrava e o pavor na expressão da minha querida mãe que já nem tinha tantas forças pra lutar. Como sofri com medo naquele dia. Aquele homem nem parecia ser gente, parecia mais um bicho feroz. Ele disse olhando pra mim que a mataria e foi até cozinha pra pegar uma faca, ele realmente ia matá-la. Ela fugiu pela janela do meu quarto que dava pra rua. Nem posso imaginar o que se passou na cabeça dela naquele momento, só sei que daquele dia em diante ele nunca mais tocou um dedo na minha mãe. Fomos morar com minha avó.
Por uma boa parte da minha infância eu fui feliz, brinquei, aprontei como uma criança qualquer, mas os momentos de profunda tristeza que passei ecoavam mais fortes e se refletiram na minha adolescência, fase onde surgem as maiores dúvidas e inseguranças de qualquer pessoa.
Lembro-me com clareza que ficava horas chorando atrás da porta, alguns diziam que eu era louca como minha bisavó, outras diziam que foram os traumas que me deixaram assim. Escutava tudo, mas fingia que não era comigo.
Essa altura da minha vida, já tinha uns 12 ou 13 anos e minha mãe trabalhava como confeiteira em fortaleza e eu e meus irmãos ficavamos com meus avós aqui em Uruaú. Foi um tempo tão difícil, meu avô pescava e o pouco que pegava mal dava pra a alimentação... Minha mãe mandava um dinheirinho que dava pra comprar o leite dos meninos, mas também era só isso.
Tudo passou e hoje sou alguém que sonha e que não se sente vitima de nada. Todas as experiências que passei tanto as boas quantos as tristes serviram pra que eu amadurecesse cedo e passasse a dar mais valor ao que tenho, não falo de coisas matérias, mas os bens mais preciosos da minha vida, a família e os amigos.
Pessoas especiais passaram por minha vida e me ajudaram a superar algumas lembranças que gostaria de esquecer, minha família que apesar de complicada me ama, eu sei. Vivi a adolescência de uma maneira conturbada, mas os amigos dessa época são meus amigos até hoje e foi por eles e por minha família que superei todos os traumas e desilusões e se um dia eu chorei atrás da porta como uma menina indefesa foi por eles que lutei e sorri novamente!