
Não quero aqui tentar decifrar a violência em sua essência, até porque seria necessário um estudo bem mais aprofundado. O que quero passar aqui são relatos que nos levam a conhecer um pouco mais a vida nas favelas da capital cearense, em especial ao Serviluz.
Num dia ensolarado chego ao Titãzinho conhecido em toda a cidade por ser um ponto de encontro dos amantes do surf. Olho o mar que parece estar mais verde do que nunca e lá estão eles, os surfistas. Aproveitando as belas ondas eles parecem se sentirem livres de qualquer medo. Mais adiante em baixo de um pé de castanhola (bem eu acho que é castanhola) rapazes fumam seus cigarros e falam sobre futebol e surf (nada mais normal do que se falar nesses assuntos em rodas de rapazes). Enquanto isso mulheres passam pelas ruas arrastando seus filhos enquanto outras crianças circulam sozinhas como se estivessem sem rumo, sem donos.
Ao caminhar pelas ruas do Serviluz percebo que a vida corre no curso normal de qualquer outro lugar. As pessoas vivem suas vidas aparentemente sem muitas preocupações. Converso com algumas pessoas que afirmam gostarem de viver aqui e dizem que a especulação da mídia em relação à violência no bairro é maior do que ela é de fato, “O povo pensa que aqui todo mundo é bandido”, como afirma D. Neusa, moradora do bairro há muitos anos. Já sua filha D. Maria de Jesus, mas que prefere ser chamada de Dijé, diz que se pudesse já teria saído daqui com toda sua família. , pois não suporta mais a violência, ela mesma já foi assaltada três vezes em sua lojinha que fica em frente a sua casa de onde tira o sustento de sua família. D. Neuza rebate o argumento da filha e diz que não é porque aqui acontece assalto que podem dizer que é um lugar ruim porque se for assim nem um lugar em fortaleza é bom. Segundo ela os maiores assaltos acontecem na Aldeota, bairro de gente rica. Percebi ai que a questão da violência é sentida de forma bem diferente em um mesmo contexto.
Quando chega à tarde, na padaria da esquina da casa de D. Dijé vende uma tapioca deliciosa que é servida na casa dela com um café fresquinho, de repente a casa se enche de gente que parece sentir o cheiro do cafezinho de longe e todos comem numa boa. Quando vai chegando à noite as ruelas e os becos vão se enchendo de gente que vão e vem de seus trabalhos. Lá em baixo da arvore que pela manhã servia de ponto de encontro dos amigos agora serve de abrigo pras barracas de batatinha frita que algumas senhoras vendem para complementar a renda em casa.
A violência não parece ser o que rege a vida das pessoas daqui, mas o que percebi de mais violento nesse contexto todo foi a violação do direito ao sonho. Crianças que vejo sem rumo, crianças e adolescentes que não tem expectativa de vida diferente das de seus pais, uma forma de acomodação inserida no psicológico dos mais velhos e que por falta de oportunidades está se transformando na realidade dos mais jovens também.
Há, também, embora poucos, exemplos de pessoas que tiveram tudo para dar errado e deram certo como é caso de Tita Tavares, nascida no Serviluz conseguiu se destacar no surf e ganhar diversos prêmios inclusive o de campeã brasileira no circuito WQS de 2000. O que falta para que os jovens daqui deixem de entrar cada vez mais cedo na criminalidade, são oportunidades. Oportunidades de estudar principalmente.
Por fim gostaria de dizer que as maiores impressões que vivi aqui, penso que isso se aplica a qualquer comunidade, é que é formada por gente comum, sem necessariamente se aplicar a historinha de mocinhos e bandidos.

Um comentário:
Nossa adorei essa sua análise,vc é muito boa Maurita..
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